O Plano Alquímico de Judith Butler

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Uma vez que estou escrevendo um pequeno artigo sobre o feminismo (e ideologia de gênero), vi-me na desagradável contingência de reler alguns autores modernos cujos pensamentos contribuíram para o atoleiro moral e intelectual em que vivemos. Chamou-me a atenção, nesta releitura, o fato de que, sendo todos eles materialistas convictos, a estrutura de suas ideias sempre cheira a um misticismo barato e imanentizado. Marx e Marcuse, por exemplo, claramente raciocinam e argumentam sob uma clave gnóstica, recusando-se a aceitar o mal do mundo como sendo um efeito da queda do homem e alocando suas causas para algum fator externo à natureza humana (no caso de Marx, na dialética da história; no de Marcuse, na repressão sexual fruto da evolução da civilização). Às vezes, a ânsia pelo regresso ao paraíso é expressa, como, por exemplo, nesta curiosa passagem de Shulamith Firestone (n.t.): “o difícil triunfo do Homem sobre a Natureza tornou possível restaurar o verdadeiramente natural: ele pode superar tanto a maldição que pesa sobre ele mesmo quanto a que pesa sobre Eva, restabelecento o Jardim do Édem terreno”.[1] (Firestone, Shulamith. The Dialectic of Sex: The Case for Feminist Revolution . Verso. Edição do Kindle).

Mas Marx, Marcuse e Firestone já morreram. Embora o efeito de seus trabalhos siga fazendo desmoronar o Ocidente como um todo, há coisas mais relevantes acontecendo agora; há pensadores materialistas contemporâneos cujos pensamentos se colocam, hoje, como desafio para os que ainda sonham em salvar algo da cultura Ocidental.

A pensadora da vez é Judith Butler. Seu livro de referência, sem dúvidas, é Gender Trouble: – Feminism and Subvertion of Identity. O título para o mercado brasileiro foi traduzido da seguinte forma: Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Se o leitor foi atento, percebeu que, no original, a palavra “trouble” está no singular; na tradução, foi ela colocada no plural. O que pode parecer um mero descuido (e talvez o tenha sido) representa, na verdade, uma total subversão da ideia que Butler veicula no livro. O título em português passa a impressão de que a autora se propõe a estudar uma sociedade na qual os problemas de gênero já estão colocados, visando dar-lhes uma solução ou ao menos descrevê-los. Na verdade, o que Butler pretende é o oposto: ela vê uma sociedade estabilizada no que chama de heteronormatividade[2] e pretende introduzir, nesta mesma sociedade, a questão do gênero de modo a problematizá-la e a dissolver a norma heterossexual. Ela não deseja resolver problemas de gênero; antes, quer trazer o gênero para torná-lo um problema a ser resolvido.

Se é verdade que Marx acreditava piamente no destino histórico do comunismo, Butler é menos confiante quanto ao advento da sociedade ideal. Para Marx, a própria dialética interna da história conduzirá a humanidade para o paraíso terrestre, sendo que o movimento que ele chefiava tinha por missão apenas acelerar no processo. Tal movimento é o catalisador da história, mas, com ou sem ele, o triunfo final acabará vindo necessariamente.

Butler, por sua vez, distancia-se enormemente desta visão marxista. Ela não crê (ou, ao menos, não leva isso em conta em sua teoria) que exista uma dialética da história. Ao contrário, vê em todos os tempos e em todos os lugares o triunfo da heteronormatividade, e mesmo os pensadores feministas que a precederam, por mais corrosivas que fossem suas teorias, nada mais faziam do que, indiretamente, fortalecer o inimigo. Para Butler, portanto, a situação requer uma intervenção externa: uma introdução, no sistema vigente, de um elemento capaz de desestabilizá-lo e mesmo de dissolvê-lo. Esse elemento é, justamente, a questão de gênero (o gender trouble, que dá nome a seu livro). Em resumo, seria assim: quanto mais comportamentos se manifestarem na sociedade que fujam à heteronormatividade, tanto mais a heteronormatividade mesma tenderá a sucumbir. Quando toda e qualquer conduta sexual, por bizarra que seja, for aceita, a ordem vigente perderá todo o sentido; quando tudo for normal, a norma cessa de impor qualquer conduta a quem quer que seja. Após a dissolução do sistema atual, um novo se reergueria, agora com outra configuração, aberto a toda e qualquer possibilidade de conduta e a todo e qualquer fluir de desejos sexuais. Como ela mesmo o diz (n. t.):

 

Se identidades não forem mais fixadas como as premissas de um silogismo político, e se a política não for mais entendida como um sistema de práticas derivadas dos interesses que pertencem a um sistema de sujeitos já prontos, uma nova configuração política certamente emergiria das ruínas da antiga.[3] (Butler, Judith. Gender Trouble (Routledge Classics) (p. 204). Taylor and Francis. Edição do Kindle).

 

Ou seja: para Butler, não se pode falar em um catalisador social de um processo histórico que não existe. O que se requer, nos tempos em que vivemos, é um verdadeiro solvente da heteronormatividade. E, depois de dissolvida ela, passar-se-á à reagregação dos elementos da velha ordem numa ordem superior.

Se Marx estava firme na dialética hegeliana de tese, antítese e síntese, Butler parece apontar para algo diverso: a ação que ela propõe equivale ao antigo solve et coagula dos alquimistas. Assim como o pensamento marxista clássico é uma mera imanentização da gnose de todos os tempos, o de Butler soa como uma imanentização dos velhos sonhos alquímicos. A diferença básica é a de que os alquimistas tentam aplicar o seu solve et coagula a elementos da natureza, visando transmutá-los para algo superior. Butler, contudo, que nega haver natureza (essência) de qualquer coisa senão na linguagem, trabalha seu pensamento apenas o âmbito do discurso: a realidade é composta de discursos; o elemento solvente da realidade atual é meramente discursivo; e ordem que surgirá após o reaproveitamento das ruínas da antiga continuará sendo uma a operar apenas no campo linguístico.

Como chegamos a tamanha insanidade?

Bem, a contribuição da filosofia grega para a formação da cultura ocidental é inestimável. Costuma-se dizer (e eu mesmo já o disse) que o Ocidente é uma civilização montada em cima de um tripé: filosofia grega, direito romano e fé cristã. Na verdade, hoje inclino-me a pensar que a afirmação é um tanto quanto exagerada: o Ocidente é uma civilização formada pelo cristianismo, que se utilizou, para moldá-la, da filosofia grega e do direito romano como instrumentos.

Seja lá como for, o fato é que não se pode entender nada da cultura ocidental sem levar em conta a filosofia grega. Quando Sócrates começou a dialogar com amigos e opositores, ele lançou as sementes de uma odisseia fenomenal, cujo impacto intelectual jamais deixaria de ser sentido. Platão e Aristóteles foram dois dos primeiros frutos desta semente; a árvore seguiu crescendo e, ao menos no entender deste autor, Santo Tomás de Aquino, cerca de 1.600 anos depois, ainda era prova da fecundidade do projeto socrático erguido.

Porém, pouco depois da morte de Santo Tomás, o Ocidente começou a tomar um rumo diverso. A escolástica medieval, em que pese ao fato de ser aberta a um sem número de simbolismos, fechara a porta completamente ao misticismo e à magia. Porém, à medida que o Renascimento se aproximava, a pressão pelo retorno do misticismo pagão fazia-se sentir e, por incrível que isso possa parecer aos ouvidos do leitor contemporâneo, o pensamento moderno (tanto o dito científico quanto o dito filosófico) começa a se impor não enquanto obra de um racionalismo empírico, mas enquanto obra de uma aspiração por experiências místicas e mágicas. Apenas a partir de Descartes e de Kant é que a ciência toma os rumos que a caracterizariam desde então; mas não deixa de ser sintomático que Isaac Newton (cujo nascimento se deu poucos anos antes da morte de Descartes e cujo falecimento se deu poucos anos depois do nascimento de Kant, tendo sido, pois, contemporâneo de ambos), considerado o pai da ciência moderna, interessava-se muito mais por estudos de magia e de alquimia do que por estudos de física.

Assim, é de todo normal que, por materialista e racionalista que pretenda ser, o pensamento contemporâneo acabe por prestar homenagem ao misticismo do qual surgiu, amoldando suas próprias ideias ao mesmo esquema mental daqueles que lhe deram origem. No livro de Butler aqui comentado, esse misticismo materialista, essa recusa à aceitação da realidade chega às raias do inimaginável. Ou, ao menos, do que era inimaginável apenas poucos anos antes que ela viesse a público com o seu solve et coagula. E, passados quase trinta anos desde que lançou o livro, pode-se dizer que a etapa do solve está bem adiantada. O mundo novo que surgirá depois do coagula, porém, talvez venha a ser imensamente diverso daquele com o qual ela sonhou…

 

[1] No original: Man’s difficult triumph over Nature has made it possible to restore the truly natural: he could undo both his own and Eve’s curse, to re-establish the earthly Garden of Eden.

[2] Entenda-se por heteronormatividade a imposição, legal e/ou cultural, de um padrão de conduta sexual, qual seja, a heterossexualidade voltada para a procriação

[3] No original: “If identities were no longer fixed as the premises of a political syllogism, and politics no longer understood as a set of practices derived from the alleged interests that belong to a set of ready-made subjects, a new configuration of politics would surely emerge from the ruins of the old”

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