“Nossos Mujiques Mantiveram-se Firmes”

 

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Família de mujiques do Século XIX. Fonte da Imagem: https://myloview.com.br/fotomural-russia-mujik-familia-mujiques-do-seculo-19-no-198A8E

 

Quando foi anunciado o resultado da eleição presidencial neste último domingo (28/10/18), logo veio-me à mente uma frase impactante do livro “Irmãos Karamazov”, de Dostoievski. Dentre tantos assuntos tratados neste livro espetacular, há a estória do assassinato do patriarca da família Karamazov, Fiódor Pávlovitch, supostamente levado a cabo por um de seus filhos: Dmítri Fiódorovitch. Levado a júri, o destino dele repousava sobre pessoas simples que o julgariam, a maioria delas meros mujiques, que formavam a classe camponesa mais iletrada e pobre da Rússia. O julgamento em si representa, a meu ver, um dos mais notáveis sucessos da narrativa de todos os tempos, coisa de gênio, talvez sem paralelo na história da literatura.

Durante o julgamento, um promotor um tanto quanto decrépito faz o seu melhor para que o júri condene Dmítri; já o advogado de defesa, uma espécie de celebridade na Rússia, transforma sua fala numa verdadeira obra-prima da oratória e faz com que toda a plateia irrompa em lágrimas e aplausos, clamando pela absolvição, e consequente liberdade, do acusado. Promotor e advogado transformaram o julgamento de “Mítia” Karamazov num verdadeiro julgamento da própria nação russa, de sua cultura, de seus vícios e virtudes. Ao final, e ao contrário do que se esperava, Dmítri é condenado. Na saída, todos comentavam o resultado e um dos assistentes lançou a frase a que me referi logo no começo: “Nossos mujiques mantiveram-se firmes; e acertaram as contas com nosso Mítia”.

Acertando ou errando[1], o povo simples da Rússia decidiu uma causa posta aos seus olhos de acordo com sua consciência; suportou a pressão da plateia; fechou os ouvidos à oratória do advogado de defesa; passou por cima mesmo de ofensas feitas pelo promotor à própria Rússia (e que, no fundo, eram ofensas a eles mesmos, parcela mais pobre e iletrada do país). Enfim: mantiveram-se firmes em suas convicções; e acertaram as contas com quem julgavam que havia contas a serem acertadas.

O povo brasileiro, nesta eleição, comportou-se exatamente como o júri de Dmítri Karamazov.

Nunca se viu algo igual ao que aconteceu em Terra de Santa Cruz! O brasileiro comum simplesmente adotou um candidato desde muito antes do início da corrida presidencial. Cansado de décadas tendo que escolher entre presidenciáveis que em absoluto o representavam, descobriu, desta vez, um que, para o bem e para o mal, pensava exatamente como eles em uma gama enorme de assuntos. Ao descobri-lo, retirou-o do segundo escalão da política nacional, fez dele um candidato com potencial de se eleger e sustentou sua campanha até sua eloquente vitória.

Contra ele, jogavam todas as forças. Havia todo o establishment político. Havia todos os candidatos que, diuturnamente, não cessavam de tentar desqualificá-lo perante o eleitorado. Havia quase toda a grande mídia (com poucas, porém notáveis exceções), que trabalhou incansavelmente para assassinar sua reputação. Havia quase toda a classe artística que resolveu bancar a campanha contrária com sua cota de apelo junto às pessoas comuns.

A favor dele, havia quase nada. Seu partido era nanico. Não tinha dinheiro para custear a campanha eleitoral. Não tinha tempo de televisão. Podia apenas percorrer o Brasil de cidade em cidade, fazendo campanha literalmente ao lado do eleitor, mas até isso lhe foi tirado após o atentado que quase o matou vindo a passar a maior parte da campanha ausente das ruas.

Venhamos e convenhamos: dentro do que normalmente acontece, sua candidatura era completamente inviável. Porém, contra tudo e contra todos, o brasileiro comum havia tomado sua decisão e não estava mais disposto a voltar atrás.

Quando os comentaristas de política (que parecem conhecer tão bem de política quanto comentaristas de futebol conhecem de futebol: praticamente nada) descobriram o fenômeno, tentaram entendê-lo dentro de sua clave de pensamento absolutamente limitada. Aos olhos deles, o candidato apresentava um discurso de extrema direita, fascista, xenófobo, machista, homofóbico, religioso e violento. Para explicar como era possível um ser tão desprezível causar tanto entusiasmo entre as pessoas comuns, arriscaram-se a dizer que o povo brasileiro, ao votar em Jair Bolsonaro, apenas manifestava sua indignação com o mar de corrupção desnudado pela Operação Lava Jato, buscando, em função dele, um candidato que se situava para fora da política tradicional.

A análise é absolutamente equivocada. Tratava-se de mais uma explicação sacada na base do se non è vero, è bene trovato, que, se no fundo não convencia ninguém, ao menos acalmava os ânimos nas redações dos grandes jornais.

Mas a verdadeira razão pela qual o brasileiro elegeu o novo presidente é terrível demais para que os analistas políticos sequer aceitem cogitar dela: o povo brasileiro escolheu Jair Bolsonaro pelas mesmas razões em virtude das quais toda a classe bem falante do país o desprezava. Ele é a favor de punição severa a criminosos? Ora, o brasileiro comum também é. Ele luta com unhas e dentes contra a sexualização precoce das crianças em sala de aula? Por incrível que pareça, a maior parte de nosso povo também abomina a ideia. Ele fala contra política de cotas, contra o politicamente correto, contra a desordem causada pelos chamados movimentos sociais? Creiam-me: a maior parte de nossa população igualmente não suporta nada disso. Ele defende a família tradicional e gosta de falar em Deus e de citar frases bíblicas? Por mais que isso doa no coração de todo o establishment político, de todos os representantes de nossa grande mídia e de voa parte de nossos artistas, sou obrigado a dizer-lhes uma verdade terrível: o cidadão comum também aprecia a família formada por homem e mulher, também tem Deus em altíssima conta e também manifesta pela Bíblia um respeito de reverência sagrada.

Ou seja: Bolsonaro foi eleito porque o brasileiro comum viu nele muito de si mesmo e foi exatamente por isso que as críticas ferrenhas feitas ao candidato, ao cabo de tudo, foram incapazes de arranhá-lo no mínimo que fosse: ao ouvi-las, o eleitor tomava-as mais como ofensa pessoal do que como razões para deixar de votar naquele a quem já tinha escolhido.

Os analistas políticos simplesmente não puderam compreender o fenômeno que se desenrolava diante de seus arrogantes narizes porque se distanciaram tanto da realidade que já haviam se tornado incapazes de compreender o povo brasileiro como ele é de fato.

Por isso, apesar de todos os esforços, apesar de todas as forças movidas, apesar de todas as armas de que dispunham os demais candidatos, apesar mesmo da ausência física do candidato eleito durante a campanha, nossos compatriotas o escolheram e, feita a escolha, para o bem ou para o mal, acertando ou errando, mantiveram-se firmes até o fim.

E, mantendo-se, no dia 28 de Outubro do Ano da Graça de 2.018, acertaram as contas com aqueles com quem julgavam ter contas a acertar.

 

[1] O curioso é que, ao menos pela leitura que pessoalmente faço da obra, o júri acertou sob um ponto de vista e errou sob outro.

Uma consideração sobre ““Nossos Mujiques Mantiveram-se Firmes””

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