Como Troianos Entre Gregos

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Na trágica noite da destruição de sua cidade, os troianos acordaram já sob o assalto dos gregos, muito provavelmente sem saber o que acontecera. Não havia muito, festejavam a retirada dos gregos e a aparente vitória que haviam tido; agora, repentinamente, sua amada Troia era destruída, e a urbe troiana se arruinava para sempre. O sentimento de surpresa e estupor deve ter sido imenso; suas ideias deviam estar confusas enquanto os gregos lhes transpassavam os corpos com suas espadas. Folgaram cedo demais em sua aparente vitória; despertaram tarde demais apenas para contemplar sua derrota; morreram rápido demais para que pudessem compreender o que sucedera.

A situação de muitos no Ocidente assemelha-se tanto à dos troianos que é impossível não perceber o paralelo entre as duas civilizações. Nesses últimos dias, muitas pessoas horrorizaram-se com mais uma decisão da justiça britânica privando um casal de tentar salvar a vida de seu filho, o pequeno Alfie Evans. Como já acontecera com Charlie Gard, o Novo Príncipe, que nossos pais e avós construíram, mostrou, outra vez, quem é que dá as ordens no mundo admirável em que vivemos. E muitos dos horrorizados, como novos troianos cercados de gregos inimigos, não fazem ideia de como chegamos aqui; estão simplesmente surpresos com a face monstruosa do poder civil, que já não esconde minimamente sua pretensão totalitária e já não tem pudor nenhum de mostrar sua face mais terrível.

Contudo, o que está acontecendo era de todo previsível. Assim como é previsível que, cada vez mais frequentemente, o Estado adentrará na vida de todos e se tornará senhor de tudo.

Há algumas décadas, introduziu-se o aborto nas legislações ocidentais; pouco depois, muitas delas passaram a aceitar, igualmente, a eutanásia. Nossos pais e avós o permitiram sem que se dessem conta do que, efetivamente, isso significava: se o Estado pode dar permissão legal para que pessoas inocentes, ainda que poucas, morram, então, em essência, ele próprio é senhor da vida e da morte de todos. Se a lei pode estabelecer, por quaisquer razões que sejam, que determinada classe de indivíduos inocentes não tem direito irrestrito à vida é porque o direito à vida não é irrestrito em si mesmo; é o legislador que decide quem o tem e quem o deixa de ter; é, em suma, o Estado que aponta quem pode viver e quem pode morrer.

É verdade que o aborto e também a eutanásia foram oferecidos às pessoas como forma de limitar o poder do Estado sobre a vida do indivíduo. O argumento foi o de que, com ambos, dá-se às pessoas a liberdade de decidirem, elas próprias, assuntos importantes para suas respectivas vidas sem a interferência das autoridades constituídas: à mãe, o poder de decidir se irá ou não ter a criança que já existe em seu seio; ao moribundo, o poder de decidir se deseja viver um pouco mais ou se deseja acabar com seu próprio sofrimento por meio da morte.

Contudo, quando se aceita que o Estado possa delegar a alguém o poder de decidir que determinadas pessoas são passíveis de morte, aceita-se, quer se perceba quer não, que é ele, Estado, quem detém a palavra final sobre o direito à vida. Se tal direito residisse na pessoa humana, o Príncipe não poderia fazer nada (ou, ao menos, não poderia fazer nada legitimamente), senão tutelá-lo; qualquer coisa fora disso seria prontamente percebida como arbítrio. Mas, a aceitação de que ele pode restringi-lo, implicitamente pressupõe que o direito mesmo emana do Estado, e não da pessoa humana. E, se emana dele, então, da mesma forma como decide quem pode morrer, por óbvio que lhe toca dizer, também, quem deve viver. O direito que cabe a César de erguer o polegar para poupar a vida de um gladiador ferido seria incompreensível se não tivesse ele, igualmente, o de baixá-lo para determinar sua morte. O direito de dizer quem pode morrer é inseparável do de dizer quem pode viver.

No caso do pequeno Alfie, Leviatã nada mais fez, pois, do que, baixando seu polegar, decidir que o bebê não podia viver, possibilidade essa que já estava contida no aborto e na eutanásia, que a geração pretérita alegremente aceitou, como alegremente os troianos aceitaram aquele cavalo de madeira que os gregos lhes haviam deixado.

A história é verdadeiramente repetitiva: nela, sempre há espaço para novos troianos que façam o papel de trouxas, deixando-se enganar pelos gregos espertos e que, voluntariamente, sabendo-o ou não, abrem as portas da urbe ao inimigo. Assim como o grosso dos habitantes de Troia somente percebeu a tragédia quando já era muito tarde para qualquer reação, morrendo sem saber que, com aquele cavalo mimoso, vinha junto a destruição, da mesma forma hoje os que se dão conta de que as coisas rumam para um abismo certo estão impotentes para qualquer reação e, provavelmente, não entendem como, ao final das contas, este terror todo teve início.

Por mais que a história se repita, não é certo, contudo, que ela esteja reservando a alguém o papel de um novo Enéas. A única coisa certa, no presente momento, é que o Estado não cessará de derrubar todos os muros da cidade já invadida, e que o futuro imediato tanto da nossa geração quanto da geração dos nossos filhos e netos não soa muito auspicioso.

Isso, contudo, não nos livra do dever de lutar contra o totalitarismo triunfante, de modo que, caso haja algum Enéas escondido, ele tenha tempo de salvar algo da civilização ocidental para, quem sabe, fazê-la reviver. E, caso haja, e caso o faça, talvez, Deo volente, essa suposta Troia rediviva um dia venha ter o ímpeto e o poder de colocar Leviatã em seu devido lugar, assim como a Roma antiga, na mais sensacional ironia da história, um dia fez aos descendentes de Menelau.

2 comentários em “Como Troianos Entre Gregos”

  1. Pertinente analogia.
    Estratagemas do Estado para se tornar o senhor da morte, o senhor dos direitos dos pais, enfim, o “senhor de tudo”.

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  2. Parabéns, Alexandre.Texto bem redigido e atualíssimo. Dá um gosto de cabo de guarda- chuva na boca, ao percebermos que a vida humana é o que menos interessa aos poderosos.

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