As Três Visões do Rei – A Fé Sem Esperança

alfredthegreat
Fonte:

 

Dedico este pequeno ensaio ao Cardeal Carlo Cafarra, morto em 06/09/17. RIP

 

Recentemente, tenho conversado com muitos colegas juízes, que, quase sempre, manifestam profundo desânimo perante o que está acontecendo no Brasil e no mundo. E não sem razão. A sociedade está em franco processo de putrefação e tudo aquilo que a maior parte de nós, brasileiros, temos por bom, por belo e por  sagrado é calcado aos pés por pessoas desprezíveis e infames. Parece vivermos naquela hora errada da história em que os “novos infiéis”, de que falava Fernando Pessoa[1] em famoso poema, estão, finalmente, em sua marcha vitoriosa sobre uma civilização outrora grande e poderosa, nada havendo humanamente a ser feito.

 

Numa dessas conversas com uma colega desanimada, lembrei-me da fantástica obra de G. K. Chesterton “The Ballad of The White Horse”. Trata-se de uma narrativa em verso da épica resistência do Rei Alfred (que depois seria chamado de “o Grande”) contra a invasão viking da Inglaterra, resistência essa que o levou à célebre Batalha de Ethandune, na qual as forças (ou os farrapos, como se queira) de Wessex chocaram-se contra o colossal exército dinamarquês liderado por Guthrum.

 

Por volta do Ano da Graça de 878, Alfred, então rei de Wessex (ao sul do que hoje é a Inglaterra) viu-se na contingência de travar uma luta imensamente acima de suas forças. Vikings vindos da Dinamarca tomaram praticamente toda a ilha. A situação era desesperadora e Alfred não tinha força militar suficiente para uma defesa adequada, quanto mais para um contra-ataque que pudesse retomar dos dinamarqueses a sagrada terra inglesa conspurcada pelos pagãos. É então que, no meio a sua angústia, Alfred tem uma visão da Virgem Maria.

 

A cena, toda ela, tal qual descrita por Chesterton é das mais belas que eu já vi. Alfred pergunta à Santa Mãe de Nosso Senhor não coisas do céu, que são, para ele, tão terríveis quanto às do inferno; pergunta-lhe, antes, coisas imediatas: há para ele esperança de vencer o inimigo?

 

“When our last bow is broken, Queen,
And our last javelin cast,
Under some sad, green evening sky,
Holding a ruined cross on high,
Under warm westland grass to lie,
Shall we come home at last?”[2]

 

As palavras de Alfred são tocantes. Poucas vezes vi uma descrição tão poética da dúvida que, no fundo, vai no coração de todos nós, homens desanimados perante o poder de um inimigo aparentemente muito mais forte: vale a pena lutar? Vale a pena gastar tudo o que temos por uma causa que se afigura perdida de antemão?

 

O rei, com certeza, esperava um “sim” ou um “não” da Virgem. Pois é típico do homem esperar dos céus uma certeza acerca dos acontecimentos que ainda virão. Mas ela não lhe deu nenhuma resposta. Disse-lhe apenas que são os pagãos os que se preocupam com o futuro e que um cristão não deve temer as trevas do mundo:

 

The men of the East may spell the stars,
And times and triumphs mark,
But the men signed of the cross of Christ
Go gaily in the dark.

 

I tell you naught for your comfort,
Yea, naught for your desire,
Save that the sky grows darker yet
And the sea rises higher.

 

Night shall be thrice night over you,
And heaven an iron cope.
Do you have joy without a cause,
Yea, faith without a hope?[2]

 

A Alfred, pois, não é dada nenhuma resposta, ou, ao menos, não aquela que desejava seu coração: a ciência do futuro. Desejar conhecê-lo é coisa de homens sem fé, cujos deuses são terríveis e zombeteiros. Já os combatentes do bom combate adentram alegremente nos dias de trevas! Acrescenta-lhe a Virgem que tudo o que poderia dizer-lhe do futuro é que “o céu se tornaria ainda mais escuro e o mar ainda mais elevado”, numa clara alusão ao crescimento do poder viking caso ele não lutasse. E, se desejasse lutar, a noite seria, para ele, três vezes noite, e o céu, como uma abóboda de ferro.

 

A única resposta, assim, da Virgem é que muitos sofrimentos esperavam Alfred, quer ele lutasse, quer não. Mas, ao fim de tudo, ela lhe dirige um desafio, que hoje é dirigido a cada um de nós: “Do you have joy without a cause, yea, faith without a hope?” Seria ele capaz de ter alegria sem uma causa imediata e de ter fé sem uma esperança humana?

 

Seríamos capazes, nós mesmos, de tal alegria e de tal fé? Será que, nesse instante em que os novos infiéis parecem vencer, temos nós verve suficiente para aceitar que o mundo todo se precipita em sombras e que somos chamados não a uma vitória, mas apenas e tão somente ao combate?

 

Bem… Alfred foi capaz. Após essa primeira visão, foi em busca de aliados:

 

Up across windy wastes and up
Went Alfred over the shaws,
Shaken of the joy of giants,
The joy without a cause.[3]

 

Um gigante de verdade! Capaz de enfrentar desertos e matas animado por uma alegria não mundana. Tão gigantesca foi a figura de Alfred que se tornou ele único rei inglês que, na gloriosa história daquele país, ganhou o epíteto de “o Grande”.

 

Os aliados que Alfred busca e que acabariam por lutar consigo não são personagens históricos. Num golpe brilhante, Chesterton colocou três homens a lutar ao lado do grande rei inglês: um italiano (Mark), um saxão (Eldred) e outro irlandês (Colan), representando os povos que colonizaram a Inglaterra e que forjaram o espírito inglês. Quando o rei Alfred pôs-se face a face com o temível exército dinamarquês, estes três povos estavam de fato lutando com ele e com seus soldados, pois, de uma certa forma, lutavam nele  e nos seus soldados.

 

Todos se reuniram e marcharam para Ethandune. Ao chegarem perto do local em que se daria a batalha, a esperança dos ingleses se desfez: a superioridade do exército inimigo era colossal e a derrota viria rapidamente. Mas, ainda que a esperança morresse, não morreu no coração deles o ânimo de simplesmente lutar pela Inglaterra. Alfred confessou publicamente seus pecados mais escandalosos; Mark, Eldred e Colan explicam como gostariam de ser sepultados.

 

A morte era certa; a honra da luta, contudo, não lhes seria roubada.

 

Estava tudo pronto para a Batalha de Ethandune!

 

Parte II

 

[1]Pai, foste cavaleiro./ Hoje a vigília é nossa. / Dá-nos o exemplo inteiro/E a tua inteira força!/ Dá, contra a hora em que, errada,/Novos infiéis vençam,/A bênção como espada,/ A espada como benção!

[2]Os Homens do leste podem ler as estrelas/ e marcar os tempos e os triunfos,/ mas aqueles marcados com a cruz de Cristo/ andam alegremente pelas trevas.

Eu nada digo para o teu conforto/ sim, nada quanto ao teu desejo/ a não ser que o céu será ainda mais escuro/ e que o mar subirá ainda mais.

A noite será três vezes noite sobre ti/ e o céu uma abóbada de ferro./ Você teria alegria sem causa/ e fé sem esperança?

 

[3] Para cima e através de desertos com ventanias e para cima/foi Alfred por sobre matagais/agitado pela alegria dos gigantes,/pela alegria sem causa.

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