As Três Visões do Rei – A Batalha de Ethandune

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Parte I.

 

A batalha de Ethandune pode ser considerada como um dos dias mais gloriosos da história da Inglaterra. Trata-se de um daqueles episódios verdadeiramente épicos que raramente se repetem e que, quando ocorrem, trazem consigo uma gama de lições simbólicas e que não devem jamais ser desprezada.

 

Postas as forças prontas para o combate, de um lado, havia um exército temível e vitorioso; de outro, um pequeno amontoado de gente. A discrepância é tão grande, que Harold, um sobrinho do rei dinamarquês Guthrum, ao ver o exército inglês, tem reação semelhante àquela que teve o gigante Golias ao ver Davi, seu desafiante: ofendeu-se. De fato, tal como Golias esbravejou “Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus?”, disse o jovem e presunçoso Harold: “And shall I fight with scarecrows/ That am of Guthrum’s blood?” (devo eu, que sou do mesmo sangue de Guthrum, lutar com espantalhos?).

 

Não creio que Chesterton tenha colocado tais palavras na boca de Harold sem se dar conta do paralelismo evidente entre Davi e Golias, de um lado, com as forças perfiladas em Ethandune de outro.

 

A luta entre Davi e Golias é tomada, claramente, como um arquétipo de tantas outras que se travariam na história na qual pessoas impiedosas fiam-se em sua força humanamente superior para considerarem-se vitoriosas antes mesmo de a batalha começar, sem considerar que a força menor que marcha contra si apoia-se mais na Providência divina do que nas armas que empunha. Tanto que, tal qual Golias, mal Harold termina de dizer suas palavras presunçosas, um dos companheiros de Alfred (Egbert) atirou-lhe sua espada, que se crava abaixo do olho de Harold, matando o sobrinho de Guthrum.

 

Harold, como o gigante bíblico, morre ainda com o hálito de sua arrogância em curso dentro de sua boca. Sua queda ao solo mancha a vegetação de vermelho e serve de sinal para o início da batalha de Ethandune, que viria definir os rumos da história inglesa e, dada a importância da Inglaterra e de suas futuras colônias, definir em boa parte os rumos a história do mundo.

 

As forças de Guthrum, contudo, monstram rapidamente sua superioridade. O choque entre os dois exércitos é desastroso para os ingleses, cujas forças ao centro, à esquerda e à direita são facilmente quebradas. Os heróis juntados pelo rei de Wessex lutam com bravura, mas caem um a um: primeiro, Eldred, morto por uma lança enfeitiçada atirada por Elf, um dos príncipes dinamarqueses. Mark, o romano, quebra a lança mágica e mata Elf, mas, no embate com o poderoso Orgier, acaba por ser atingido, morrendo ele também. Orgier, então, entoa um canto de batalha, rindo-se de Roma, que como o próprio Mark, caíra diante do poder dos bárbaros.

 

Alfred e Colan se vêem obrigados a um recuo com seus poucos homens. Mas, num golpe do destino, os grupos se separam e Colan acaba morto. Alfred, então, se vê sozinho junto à floresta, estando sua derrota já muito bem desenhada. Tanto que os dinamarqueses já começam a festejar e alguns ingleses se põe como que a abandonar o campo de batalha.

 

Mas, em Alfred, ressoava, ainda aquela pergunta, aquele desafio que lhe fora lançado pela Virgem quando de sua primeira visão: do you have joy without a cause/ yea, faith without a hope? Em sua alma, ainda era por demais viva a advertência de que os dias, sob domínio dinamarquês, seriam terríveis: the sky grows darker yet/ and the sea rises higher.

 

Para Alfred, desistir da luta apenas em virtude da derrota certa não era alternativa. Para ele, melhor era morrer do que viver uma vida assistindo a tudo o que tinha por mais sagrado ser pisoteado por infiéis impiedosos.

 

“Brothers at arms,” said Alfred,
“On this side lies the foe;
Are slavery and starvation flowers,
That you should pluck them so?

“For whether is it better
To be prodded with Danish poles,
Having hewn a chamber in a ditch,
And hounded like a howling witch,
Or smoked to death in holes?

“Or that before the red cock crow
All we, a thousand strong,
Go down the dark road to God’s house,
Singing a Wessex song?

“To sweat a slave to a race of slaves,
To drink up infamy?
No, brothers, by your leave, I think
Death is a better ale to drink,
And by all the stars of Christ that sink,
The Danes shall drink with me.[1]

 

Eis aí a grandeza de Alfred, o Grande. O gigante verdadeiramente capaz de uma alegria sem causa e de uma fé sem esperança! Para ele, a vida sob o jugo inimigo era apenas fome e escravidão. Outros poderiam, ainda assim, querer preservá-la como algo digno de se preservar, como flores a serem colhidas no jardim da vergonha. Mas alguém da estatura do rei de Wessex jamais o admitiria. Para ele, era muito melhor caminhar para a morte, descendo mais uma vez sobre os dinamarqueses num ataque desesperado, do que beber da infâmia de servir como escravo a um povo pagão, escravo ele mesmo de seus vícios. Iria para a morte certa; mas faria com que os dinamarqueses dela experimentassem por meio de sua espada.

 

Alfred, então, soa sua trombeta, que herdara de heróis ingleses do passado, e o resto do exército inglês inicia aquela que se destinava a ser sua última marcha. Heróica e epicamente! Em Ethandune, nos dizeres do próprio Chesterton, deu-se a primeira Cruzada, pois o espírito que animou aqueles bravos ingleses era o mesmo que, séculos depois, desceria sobre Godofredo de Bulhões, sobre Ricardo Coração de Leão, sobre São Luís de França, sobre Sobieski e sobre tantos outros. Era a defesa da cristandade contra o mal que a ameaçava e que, ainda hoje, mais uma vez, ameaça o que dela sobrou.

 

Ao ver esta última investida dos ingleses, o exército dinamarquês de Guthrum toma novamente posição. Estavam prontos para um último massacre. É, então, que o inesperado acontece. Enquanto cavalgava para a morte, Alfred faz o que de mais inesperado se podia fazer em momento tão dramático: ele lembra-se de olhar para o céu! Quem, senão um gigante, senão um cruzado antes das Cruzadas, lembrar-se-ia de, neste momento, levantar seus olhos da terra para ver se o céu lhe reservara alguma surpresa?

 

Pois ele o fez:

 

And when the last arrow
Was fitted and was flown,
When the broken shield hung on the breast,
And the hopeless lance was laid in rest,
And the hopeless horn blown,

The King looked up, and what he saw
Was a great light like death,
For Our Lady stood on the standards rent,
As lonely and as innocent
As when between white walls she went
And the lilies of Nazareth.

One instant in a still light
He saw Our Lady then,
Her dress was soft as western sky,
And she was a queen most womanly–
But she was a queen of men.

Over the iron forest
He saw Our Lady stand,
Her eyes were sad withouten art,
And seven swords were in her heart–
But one was in her hand.[2]

 

A nova visão da Virgem (a segunda) é muito curiosa. Ela surge, em princípio, ferida de dor, mais como a Mãe de Deus do Stabat Mater do que como um sinal de vitória. Era branca e inocente, como Seu Filho pendente da Cruz, trazendo sete espadas cravadas em seu coração. Porém, havia uma oitava, e esta, ela trazia empunhada em sua mão, pronta para o combate. A tristeza de uma mãe que vê morrer seus filhos, e a coragem de uma mãe que jamais aceitaria vê-los morrer sem socorrê-los fundem-se na imagem admirável e Alfred entende que havia Alguém lutando por ele; e que esse guerreiro é invencível.

 

Animado pela visão, Alfred vê o essencial: o futuro da cristandade estava em jogo. Os céus, então, vinham em socorro dos poucos homens que aceitaram morrer para defender a fé e a vitória era certa.

 

Ele, então, na fúria da batalha, busca Orgier, o campeão de Guthrum, para combatê-lo, matando-o violentamente. A morte de Orgier foi o sinal que os ingleses esperavam. A queda do campeão de Guthrum encheu os ingleses de ânimo e abalou a moral dinamarquesa. Cheios de um confiança para além de toda esperança humana, avançam impiedosamente sobre os dinamarqueses, que se vêem em pânico e paralisados pelo medo, tombando um a um ante a onda inglesa que percorria suas linhas. Alfred, então,  entoa a canção da vitória:

 

The Mother of God goes over them,
On dreadful cherubs borne;
And the psalm is roaring above the rune,
And the Cross goes over the sun and moon,
Endeth the battle of Ethandune
With the blowing of a horn.”[3]

 

O próprio Guthrum fica atônito com o que vê e, ao perceber o baluarte de Odin ser tomado e rasgado pelos ingleses, dá-se por vencido. Era um sábio rei, e não um prepotente como seu sobrinho Harold. Vendo a cena, e percebendo a sua derrota, dá por vencido também os seus deuses, convertendo-se ao cristianismo e fazendo-se batizar poucos dias depois.

 

A conversão de Guthrum foi um fato histórico de notável alcance.

 

É voz comum que o Ocidente ergueu-se sobre um tripé: filosofia grega, direito romano e fé cristã. E, de fato, parece-me que foi assim. Contudo, foi com resistência aos bárbaros, especialmente aos vikings, e com a conversão deles, que a cristandade ocidental ganhou seu quarto elemento essencial: um espírito guerreiro capaz de resistir aos inimigos mais cruéis.

 

Assinala Christopher Dawson em seu livro “A Criação do Ocidente” (É Realizações, p. 120/121) falando da guerra contra os vikings:

 

Nunca houve uma guerra que ameaçasse tão diretamente a existência da cristandade ocidental; de fato, essa resistência cristã tem mais direito de receber o nome de cruzada que as próprias cruzadas. A resistência obstinada aos ataques vikings forçou a incipiente ordem da cristandade ocidental a um terrível teste, cuja dureza e seriedade descartou tudo aquilo que era fraco e supérfluo, deixando apenas os elementos mais fortes e resistentes, habituados à insegurança e à violência (…) Reafirmou-se o caráter guerreiro da sociedade ocidental, herdado dos próprios bárbaros. Daí por diante, o ethos guerreiro (…) passou a ser tão dominante na sociedade cristã quanto fora a seus vizinhos”.

 

Grécia, Roma e Jerusalém criaram a mais esplêndida das civilizações. Mas foram os bárbaros quem nos ensinaram a defendê-la. Nesse sentido, a conversão dos vikings é coisa que desempenhou papel fundamental na história do ocidente, e Guthrum, vencido por Alfred, ao se fazer batizar foi um dos primeiros (senão o primeiro) rei viking a se converter, iniciando o próprio processo de conversão da Dinamarca e de todo o norte europeu.

 

A Batalha de Ethandune é, pois, um exemplo para todos nós. Tal como Alfred, também nossa geração se defronta com um adversário muito mais poderoso. Também nós nos vemos na condição de termos de sustentar uma alegria sem causa e uma fé sem esperança. Os inimigos do Ocidente ocuparam todos os espaços e não dão qualquer sinal de que retrocederão em sua marcha vitoriosa.

 

Humanamente falando, a batalha contra os novos infiéis está perdida. Mas é exatamente por isso que podemos ter certeza da vitória. Desde que, em nosso meio, haja alguns poucos ainda capazes, no momento mais desesperador da batalha, naquele instante mesmo em que tudo parece perdido, de simplesmente olhar para o céu e dele esperar o socorro no momento decisivo.

 

Parte III

 

[1] “Irmãos de armas”, disse Alfred/“neste lado está o inimigo;/ a escravidão e a fome são por acaso flores/ para que venhais a colhê-las desta maneira?

Pois o que é melhor/ser perfurado por estacas dinamarquesas/ após cavar uma câmara numa vala/e perseguido como uma bruxa que grita/ou sufocado pela fumaça até a morte em buracos?

Ou é melhor, então, antes do galo vermelho cantar/que todos nós, mil homens fortes/desçamos a estrada escura até a casa de Deus/ cantando uma canção de Wessex?

Transpirar como um escravo para servir uma raça de escravos/ e beber de infâmia?/Não, irmãos, com vossa licença, eu acho/que a morte é uma bebida melhor para se beber/ e por todas as estrelas cadentes de Cristo/os dinamarqueses sela beberão comigo.

 

[2] E quando a última flecha/foi preparada e lançada/quando o escudo quebrado pendia sobre o peito/e quando se deitou a lança desesperançada em descanso/e a trombeta desesperançada soou,

O rei olhou para cima, e o que ele viu/foi uma luz grande como a morte/pois Nossa Senhora estava de pé sobre as bandeiras rasgadas/ sozinha e inocente/tal como quando caminhava entre as paredes brancas/ e os lírios de Nazaré.

Por um instante, numa luz parada/ele então viu Nossa Senhora/seu vestido era suave como o céu do ocidente/e ela era uma rainha muito feminina/mas era uma rainha de homens.

Sobre a floresta de ferro/ele viu Nossa Senhora de pé/os olhos dela não tinham astúcia/trazia sete espadas em seu coração-/mas uma espada trazia na mão.

 

[3] A mãe Deus desce sobre eles,/carregada por temíveis querubins;/e o Salmo ribomboa por sobre a runa,/ e a Cruz sobre o sol e a lua,/ encerrando a batalha de Ethandune/ com o soar da trombeta.

 

Uma consideração sobre “As Três Visões do Rei – A Batalha de Ethandune”

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