Leviatã Disse Não

Baal
Fonte da imagem: http://juliosevero.blogspot.com.br/2009/04/os-modernos-adoradores-de-baal.html

 

No mundo antigo, a vida humana era coisa barata. Valia muito pouco e, mesmo em recantos mais civilizados, como na Grécia, a situação não era muito diferente, sendo célebre o direito dos pais espartanos em descartar os filhos recém nascidos caso os julgassem pouco aptos a servir à causa da Cidade. Em outras grandes civilizações, o sacrifício de crianças era coisa do dia a dia das pessoas, que as entregavam aos pés de Baal em rituais que hoje chamaríamos de demoníacos (e que, na concepção deste pobre escriba, eram-no de fato).

Mas, os tempos mudaram. Num recanto escondido do Império Romano, um pequeno povo havia recebido um mandamento diferente, pelo qual matar outro ser humano era coisa proibida. A vida humana era dádiva de Deus e, em virtude de sua origem divina, tinha um valor até então desconhecido pelos demais povos. Posteriormente, com o cristianismo, essa concepção radicalmente nova (e, acrescento eu, completamente absurda de um ponto de vista meramente materialista) se expandiu para os confins da Terra. Aos poucos, o ser humano passou a ter um valor não somente porque sua vida era como que um sopro divino mas, também, porque o próprio Deus viera sacrificar-se por ele; não apenas porque Ele o criara, mas porque o amava com um amor que simplesmente foge à nossa capacidade de compreensão. Não haveria, doravante, mais sacrifícios de crianças, nem de velhos, nem de doentes, nem de quem quer que seja. Matá-los passou de coisa comum e esperada a algo abominável e revoltante.

Acostumamo-nos com isso. Acostumamo-nos com a ideia de que, tendo a vida humana um altíssimo valor, mesmo os mais fracos devem ser protegidos. Não somente as crianças, mas os velhos[1] e os doentes também passaram a gozar de um status social que não somente não fora imaginado pelos antigos mas que, caso esses o tivessem imaginado, rechaçá-lo-iam como algo flagrantemente absurdo.

Acostumamo-nos tanto a esse estado de coisas que jamais imaginaríamos que a humanidade pudesse voltar atrás. Tomamos a nossa própria cultura cristã como a régua pela qual medíamos a humanidade inteira e simplesmente não conseguíamos raciocinar no sentido de que, subtraída a base cristã da cultura, o retrocesso nela seria inevitável. Mas bastaria olhar o mundo à nossa volta, bastaria olhar como se comportam até hoje as diversas culturas nas quais a ideia da sacralidade da vida humana ainda não se enraizou para que soubéssemos que, subtraída tal sacralidade, abominações voltariam a fazer parte do nosso dia a dia. Seria fácil percebê-lo, mas quase todos (exceção feita a poucas vozes heroicas, que desde há muito avisavam do perigo que se desenhava no horizonte) preferiram manter-se presos num sonho de progresso contínuo; presos na mentira de que era possível viver a vida mais hedonista imaginável sem que isso cobrasse um preço civilizacional.

Contudo, na semana passada, muitos foram acordados desse sonho da forma mais dolorosa que se poderia imaginar. O Grande Leviatã (agindo, no caso, por meio do Tribunal Europeu de “Direitos Humanos” – seria uma ironia sensacional se não fosse uma trágica realidade) impediu que pais de Charlie Gard envidassem esforços para salvar seu filho da morte. A criança nasceu com rara doença e não existe tratamento conservador capaz de mantê-la viva. Contudo, há tratamento alternativo à disposição e os pais do menino, heroicamente, levantaram uma pequena fortuna para custeá-lo.

Mas Leviatã disse não…

Quem manda na vida e na morte do pequeno Charlie não é ele próprio (mesmo porque ainda um bebê) nem mesmo seus pais. Quem, como outrora os pais espartanos, decide se a criança é apta ou não para habitar esse belo mundo que estamos construindo é o Estado Totalitário, aqui agindo por meio de um tribunal que transcende os Estados Nacionais. E pode decidi-lo ainda que contra a vontade dos pais; e, num futuro próximo, ainda que contra a vontade manifesta do próprio doente já em idade de decidir por si mesmo.

Leviatã, que já pode muito, quer poder cada vez mais e não cessará de avançar até que, ao final, possa tudo.

Como chegamos nisso?

Ora, há séculos expulsamos Deus de nossas vidas.

Ao expulsá-lo, jogamos na lata de lixo a noção de que a vida humana é sagrada, erigindo, como valor máximo de nossas existências, o gozo imediato de todos os prazeres ao nosso alcance.

Se a vida humana não é sagrada e se nossa maior preocupação é com a balada do próximo sábado à noite, cedo ou tarde as crianças (e os velhos, e os doentes, e todos os fracos que nos cercam) passariam a ser vistas mais como um peso e como uma fonte de despesas do que como uma benção divina.

E, sendo assim, cedo ou tarde passaríamos a limitar ao mínimo possível o número de filhos que teríamos, tendo-os apenas na exata medida em que os ter representa a realização de um desejo pessoal dos pais.

Ao aceitarmos a ideia de que os filhos devem ser limitados, aceitaríamos, cedo ou tarde, a de que o aborto, ao final das contas, é um meio legítimo de se obter tal limitação quando tudo o mais falha, dando aos pais o direito de decidir quais filhos viverão e quais serão espartanamente descartados.

Quando demos aos pais o direito de decidir sobre a vida dos filhos, abrimos a possibilidade de que o Estado também o faça (ou mesmo que o faça com exclusividade), visto que, se terceiros podem decidir sobre uma vida alheia, não há razão minimamente consistente para que Leviatã não assuma, ele mesmo, esse papel. Afinal de contas, ele já decide quase tudo para o apatetado homem moderno, que, não tendo que decidir mais nada, pode se dedicar à tarefa de decidir em que local passará as próximas férias. Principalmente porque a Ordem Jurídica já não se refere a um Direito Natural ao qual deva se dobrar, tornando-se, ao final das contas, um mero amontoado de leis emanadas de Leviatã e fundadas apenas no desejo dele.

Se Leviatã pode, contra toda a Ordem Natural, dar aos pais o direito de matar os filhos, pode dar, ora bolas, a si mesmo o direito de fazê-lo. E pode, também, dando um passo adiante, declarar-se o único legitimado a fazê-lo. E (por que não?) pode, por fim, tomar para si o direito de decidir sobre a vida e a morte de todo e qualquer um dos seus súditos, seja pelas razões que forem.

Como se vê, adotados certos princípios, temos que suportar as consequências lógicas que deles defluem. Tais consequências virão cedo ou tarde nos assombrar e, às vezes, nos chocar, como chocaram, agora, com o caso do pobre Charlie Gard.

E, àqueles que se chocaram com o ocorrido e que o acharam um absurdo, digo que não basta simplesmente defendermos o retorno uma ordem de coisas na qual os pais podem decidir sobre a vida dos filhos, mas o Estado não, pois foi justamente essa ordem de coisas que acabou por gerar o absurdo que se visa combater. Seria querer extirpar os efeitos enquanto nos comprazemos nas causas que o geraram.

Não adiantaria, igualmente, apenas lutar contra o aborto sem o abandono da civilização do hedonismo, pois foi essa que acabou por gerar a aceitação geral daquele. Novamente, seria combater os efeitos e lambuzar-se nas causas.

Ou seja, se realmente queremos combater o monstro que está sendo gestado, não temos outra saída senão retrocedermos ao estado de coisas vigentes antes que o primeiro princípio causador da sequência de efeitos estivesse presente.

Se ainda não me entenderam, digo-o com clareza: devemos lutar pela restauração de uma ordem na qual Deus seja, novamente, o centro das coisas.

Tudo o mais é bobagem e vento que passa. Pois a formação de uma sociedade centrada em Deus foi, ao cabo de tudo, o elemento único que nos permitiu elevar-nos acima das civilizações primitivas nas quais, por melhor que fossem sob muitos aspectos, a vida humana nada valia.

Ou começamos a encarar desde logo essa realidade ou o mundo do futuro será, para nós, terrivelmente novo; mas, para um adorador de Baal de 25 séculos atrás, incrivelmente familiar.

 

[1] A necessidade da existência de um estatuto de idosos e de um outro de crianças é sintoma de um tempo doentio e decadente. Isso porque a necessidade de protegê-los por serem mais fracos era algo tão bem aceito na sociedade que não havia razão alguma para impor tal obrigação por via legal. Um dia, pretendemos abordar o assunto de forma mais profunda.

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