Como Loucos no Hospício

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Em seu monumental livro “Ortodoxia”, G. K. Chesterton narra um episódio interessante a partir do qual faz toda uma crítica à filosofia e ao mundo moderno. Entendo que tal crítica é essencial para conhecermos o porquê de tantas e tantas loucuras que nos cercam. Para que o leitor possa, ele mesmo, ter acesso a essa pérola, entendo por bem colacionar a íntegra do texto a que me referi:

Se você discutir com um louco, é extremamente provável que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom juízo. Ele não é embaraçado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico por perder certos afetos da sanidade. De fato, a explicação comum para a insanidade nesse respeito é enganadora. O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.”[1]

A crítica é de uma sagacidade e de uma profundidade que somente um Chesterton poderia atingir.

Em geral, tem-se a impressão de que um louco (ou, ao menos, aquele louco típico, que julga ser Napoleão ou Cleópatra) é um sujeito que perdeu a razão. Chesterton, num de seus paradoxos geniais, sustenta que tal louco, ao contrário, não é alguém que perdeu a razão (debater com um sujeito desses na tentativa de convencê-lo não ser Napoleão é tarefa que nem Sócrates conseguiria levar a bom termo), mas, em suma, alguém que perdeu coisa diversa. O louco é alguém que perdeu o contato com realidade, ficando apenas com sua razão girando num mundo que somente existe dentro de sua mente.

A crítica às filosofias modernas contida nesse pequeno trecho de Chesterton é devastadora. Ao menos desde Kant, o Ocidente tem virado as costas para a realidade das coisas. O homem ocidental tem, cada vez mais, apegado-se  a teorias (e, nos tempos modernos, a ideologias), sem preocupar-se minimamente em confrontá-la com a realidade no intuito de observar se essa a sustenta e a confirma. O ocidental contemporâneo é como o Napoleão do hospício mais próximo, comprazendo-se em traçar estratégias para a Batalha de Waterloo sem ao menos perguntar se existe uma batalha concreta em vias de ser travada.

O fenômeno (como já assinalamos), não é novo. Já no século XVIII, ele estava presente e deixava boquiaberto qualquer um que se dispusesse a analisá-lo. A charge acima exposta (“French Liberty, British Slavery”) é de James Gillray, um britânico que fez um enorme sucesso com suas charges e que viveu entre os Anos da Graça de 1.756 e 1.815. Conta-se que ser desenhado por ele (ainda que em situações ridículas), era atestado de relevância pública, razão pela qual ninguém se importava com o fato de ser ridicularizado em suas charges. E, como, por definição, uma charge é uma crítica bem humorada da realidade, um chargista é necessariamente alguém vacinado (em algum grau, ao menos) contra a alienação dessa mesma realidade que os sistemas de pensamento moderno visam impor.

Na charge em questão, temos à esquerda, um francês esfarrapado. Come cebolas murchas. Sua casa é paupérrima e mal consegue ele manter vivo o fogo da lareira. Vive num país que enfrentava uma revolução (a “gloriosíssima” Revolução Francesa) e que se afundara na miséria justamente devido aos desmandos e à insanidade dos revolucionários.

 À direita, temos um britânico gorducho. Está a se banquetear. O único problema de sua vida, aparentemente, é o excesso de bens que o cercam. Vive num país de prosperidade econômica e de liberdade de pensamento.

No entanto, o esfarrapado afirma viver numa terra que mana leite e mel (“Oh! Santo Deus! Abençoada seja a Liberdade. Viva a Assembleia! – sem impostos! nem escravidão!- todos os cidadãos livres. Ah, ah! Deus, como vivemos bem! Nadamos em leite e mel[2]), enquanto que o gorducho crê piamente que seu governo o está matando de fome (“Ah! Esse maldito governo! Eles vão nos arruinar com seus malditos impostos! Por que, oh Deus, querem nos fazer de escravos e matar-nos de fome![3]).

Ambos os personagens entretêm-se com suas ideias (o francês esfarrapado, com a ideia de que a Revolução fora boa para seu povo e de que dela nascia um país melhor e mais próspero; o britânico gorducho, com a ideia de que vivia num país de injustiças e no qual se passava fome), sem minimamente abrirem os olhos à realidade que os cercava e que lhes dizia (na verdade, gritava-lhes) coisas bens diversas. Ao francês, dizia que aquela porcaria de Revolução fora algo de vergonhoso na história de seu país e que a pobreza e a fome grassavam em razão desse passo mal dado; ao britânico, dizia que, em que pese alguma imperfeição da sociedade em que vivia, seu país de então era um oásis de progresso e de desenvolvimento, razão de inveja para as demais nações do mundo.

Desde a época de Gillray, a situação só fez piorar e o apego do homem moderno a teorias e ideologias (com sua consequente a ojeriza à realidade) parece invencível.

São esses apego e ojeriza, por exemplo, que explicam o porquê de, malgrado os retumbantes fracassos e as centenas de milhões de vítimas advindos das revoluções marxistas e malgrado o desenvolvimento material sem precedentes do mundo capitalista contemporâneo, as pessoas insistem em flertar com o comunismo enquanto acusam os países economicamente livres de disseminar a pobreza mundo afora. Essa insistência em levarem-se adiante o fracasso e o genocídio enquanto se tenta destruir justamente o substrato econômico que permitiu um enorme avanço material das nações nos últimos duzentos anos é um exemplo clássico desse apego doentio a uma ideia (no caso, a de que o comunismo fará brotar um mundo justo e solidário) e um desprezo literalmente insano da realidade (no caso, a de que o comunismo sempre e necessariamente destrói a prosperidade de um país e a soterra sob uma multidão de cadáveres).

Esse comportamento, naturalmente, não é algo que se mantém limitado à atuação política das pessoas. O desprezo da realidade é algo tão universalmente difundido, que o podemos ver em todos os cantos. Inclusive, naturalmente, no direito e no dia a dia forense.

Um exemplo claro e que nos toca de perto é a questão da melhor via de combate à criminalidade.

Qualquer um que não tenha perdido o contato com a realidade das coisas perceberá, sem maiores dificuldades, que o combate à criminalidade se faz, sobretudo, com a punição exemplar dos criminosos. Já falamos aqui nesse blog sobre as razões da criminalidade galopante instalada na sociedade brasileira e sugerimos a leitura do artigo aos mais recalcitrantes. Contudo, existe uma teoria “bacaninha” segundo a qual a criminalidade mais será combatida quanto menos a combatermos. À medida que diminuirmos a punição dos criminosos, veremos nascer uma sociedade com menos crimes; ou, aos menos, é isso que tais pensadores nos garantem.

Décadas de implantação sistemática desse pensamento imbecil resultaram num dos países mais violentos do mundo. Se a teoria já era falha a qualquer pessoa de bom senso, seu confronto com a realidade deveria bastar para que fosse sumariamente lançada fora e pisada como uma das piores que um cérebro humano já concebeu.

Contudo, seus defensores seguem impávidos. Inabaláveis. Confiantes a não mais poder. Seguem, em suma, distraindo-se com ela, desprezando a realidade, que a desmente ao menos uma vez a cada dois minutos.

O maior problema desse apego às ideias reside no fato de que todos nós vivemos justamente no mundo real, que desprezamos. É a realidade que bate em nossas portas todos os dias, compelindo-nos e exigindo de nós respostas adequadas àquilo que ela nos propõe. Por mais que queiramos, não podemos nos desprender dela e, ainda que tentemos ignorá-la, ela nos cobra seu preço. Para ficarmos nos exemplos aqui dados, por mais que alguns gostem das ideias comunistas, experiências comunistas reais continuarão a produzir cadáveres às centenas de milhões e a destruir as economias dos desafortunados países em que se instalarem; e, por mais que se queira o contrário, a insistência na impunidade continuará produzindo doses ainda maiores de crimes, transformando a vida comum do cidadão brasileiro numa insegurança sem fim.

No mundo atual, urge, pois, que todos (especialmente nós, magistrados) voltemos nossos olhares atentos à realidade das coisas e que nos desintoxiquemos um pouco das teorias malucas que nos inocularam nas faculdades e nos cursos de pós-graduação. Proceder assim fará um bem enorme a nós mesmos e à nossa atividade jurisdicional.

Temo, contudo, que poucos darão ouvidos a esse apelo, pois, por definição, o Napoleão e a Cleópatra do hospício mais próximo estão alienados demais até mesmo para perceber sua condição de malucos. Donde se espera que farão ouvidos moucos e insistirão, tal qual um conhecido personagem de televisão, a proclamar em alto e bom tom: “eu sou normal!”

Dito isso, haveria, agora, que se voltar a atenção a um outro tipo de louco, ainda mais perigoso.

Esse não se encaixa nem na descrição de Chesterton nem na charge de Gillray.

Trata-se daquele que, embora conheça a realidade das coisas, julga poder alterá-la. É o louco que já não se contenta em ser Napoleão ou Cleópatra. Alienou-se, num primeiro momento, a tal ponto do mundo real que julga ser Deus em pessoa e, voltando-se agora à realidade que o cerca, crê firmemente poder mudar a natureza das coisas e atua nessa direção. É um louco, portanto, muito mais perigoso. Há também exemplares deles no Poder Judiciário. Mas esse artigo já vai longe e penso, para não enlouquecer o leitor, ser melhor tratar dessa loucura qualificada numa próxima ocasião.

[1] Fonte: https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/07/chesterton_-_ortodoxia.pdf

[2] Tradução livre do texto original: “O Sacre Dieu! – vat blessing be de Liberte vive le Assemblè Nationale! – no more Tax! no more Slavery! – all Free Citizen! ha hah! by Gar, how ve live! – ve svim in de Milk & Honey!”.

[3] Tradução livre do texto original: “Ah! this cursed Ministry! they’ll ruin us, with their damn’d Taxes! why, Zounds! – they’re making Slaves of us all, & Starving us to Death!”

Uma consideração sobre “Como Loucos no Hospício”

  1. Bacana o texto e mais ainda vindo de algúem do meio judiciário. Parabéns!!

    Curioso que os juízes talvez devessem ser os mais ligados à realidade. Pois na frente de um juiz a realidade se impõe com frequencia e ele tem que lidar com ela para trabalhar.

    Um engenheiro pode usar a imaginação para construir um prédio, assim como um empresário para montar seu negócio. A costureira imagina o vestido antes de fazê-lo, mesmo a cozinheira pode imaginar formas diferentes de temperar um prato.

    O trabalho do juiz não me parece desse tipo: Imaginativo. Não seria ele antes um guardião dos valores e da lei da sociedade que representa? Cabe a ele criar uma nova sociedade, novas leis, novos valores?

    O juiz pode ter seus valores na vida privada, mas na esfera pública ele representa toda a sociedade, e me parece que faria melhor representando seus concidadãos, que concederam a ele um enorme poder, acreditando que essa pessoa, como juiz, defenderia essa sociedade, principalmente contra os que a agridem.

    Qual o papel do juiz? O que se ensina nas faculdades? Ele deve “mudar o mundo” ou ajudar a que esse mundo não seja destruído?

    Abs

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