Pokémon GO: a procura do NADA.

pokemon

Pokémon GO é um jogo free-to-play de realidade aumentada.

O que significa isto?

Free-to-play significa que é gratuito.

Pokémon advém do nome pocket monsters, algo como “monstros de bolso”. Para que alguém ia querer ter um monstro de bolso, ainda mais virtual?

Talvez porque, segundo o jogo, um Treinador que encontra um Pokémon selvagem é capaz de capturá-lo através de um objeto esférico chamado Pokébola. Se o Pokémon não escapar da Pokébola, ele é considerado oficialmente do Treinador. Em seguida, o Pokémon irá obedecer a todos os comandos do seu mestre, a menos que o Treinador não tenha muita experiência, a ponto dele preferir agir por conta própria. Os Treinadores podem mandar seus Pokémon para batalhas contra outros Pokémon (Wikipedia, verbete Pokémon)

Agora está explicado, que coisa mais bizarra…

O conceito de realidade aumentada é estranhíssimo, pois, segundo a definição dada pela Wikipedia, é a integração de informações virtuais a visualizações do mundo real (como, por exemplo, através de uma câmera).

Mas a realidade pode ser aumentada? Claro que não. O nome foi muito mal dado.

De propósito…

Para fazer as pessoas confundirem realidade com virtualidade.

Agora o Pokémon GO, propriamente, segundo a Wikipedia:

O Pokémon GO foi lançado em julho de 2016 em alguns países do mundo e nesta semana no Brasil. Fazendo uso do GPS e câmera de dispositivos compatíveis, o jogo permite aos jogadores capturar, batalhar, e treinar criaturas virtuais, chamadas Pokémon, que aparecem nas telas de dispositivos como se fossem no mundo real. Em breve, será lançado um dispositivo opcional vestível, o Pokémon Go Plus, que irá alertar os usuários quando Pokémon estiverem nas proximidades.

Ou seja, no celular de alguém, que naquela hora deveria estar estudando, trabalhando, rezando ou dormindo, aparece uma indicação de que se ele for à rua XYZ, número ABC, acusará apenas em seu dispositivo móvel, mediante sincronização deste com o GPS, que o Pokémon virtual estará “capturado” (provavelmente acionando luzes e sons no aparelho), pois o jogador se posicionou exatamente no local indicado.

Depois dessa conquista incrível, o agente, obviamente (ou supostamente?), fica tomado interiormente por uma fruição de sentimentalidades extremamente agradáveis.

Todavia, como estes jogos são como “água salgada”, dado que não saciam e provocam mais e mais sede, as buscas pelos monstrinhos não cessam nunca.

É inacreditável.

O homem, feito à imagem e semelhança de Deus é dotado de corpo e alma, diferindo-se, assim, dos outros animais. Na clássica definição de Boécio, pessoa é “uma substância individual de natureza racional”.

Ora, “divertir-se” caçando bichos que não existem, pela cidade, não parece ser algo condizente com a natureza racional de que somos dotados.

Há de se observar, caro leitor, que a “caça” aos Pokémons não terá fim e já há relatos de pessoas sendo atropeladas, assaltadas, etc em razão desse “divertimento” que parece levar as pessoas a uma realidade paralela.

Somente uma sociedade decadente, em que as pessoas não têm vida interior e sede de conhecimento, produz algo do gênero.

Afinal, as pessoas não conseguem viver o silêncio, recolher-se para uma oração, ler um livro, estar consigo próprio e com Deus. Parece ser insuportável o não ser visto, o não ser “politicamente correto”, inexiste privacidade, pois a todo momento as pessoas estão fazendo “selfies”, interagindo virtualmente…

Pokémon GO pode ser definido como “a procurada do nada”, visando preencher o vazio existencial do homem nestes dias.

E, por outro lado, este jogo parece ser um apogeu da dialética, por causa de dois aspectos:

1) O não encontro real. Normalmente, (mas, o mundo parece cada dia menos normal) as pessoas ficam felizes quando encontram alguma coisa ou alguém na rua. Exemplos: uma pessoa está com fome e conseguiu encontrar um restaurante; dois amigos se encontram na rua; etc.

O Pokémon GO inverte esta lógica óbvia: os “jogadores” ficam felizes por não encontrarem realmente os ditos monstros na rua!

2) A sujeição do mundo real ao virtual. Os artefatos tecnológicos operam de forma conveniente quando auxiliam em tarefas voltadas para o mundo que nos cerca. Assim, os mapas virtuais servem para que localizemos as ruas que existem realmente.

O Pokémon GO subverte mais uma vez. Desta feita, é o mundo real que está a serviço do virtual, pois as pessoas andam nas ruas reais para encontrarem bichos estranhíssimos e que existem apenas nos bits internéticos.

Conseguirão inventar algo ainda pior?

Não há a menor dúvida. É só esperar.

(Este artigo contou com a participação de Marcelo de Almeida Andrade)

Uma consideração sobre “Pokémon GO: a procura do NADA.”

  1. Não vejo nada de anormal na popularidade do jogo, pelo contrário, na minha opinião ele reúne vários pontos que sempre atraíram a humanidade. Primeiro que ele estimula a vontade e desejo de colecionar e acumular inerente ao ser humano, algo parecido (mas em menor escala) acontece com álbuns de figurinhas, especialmente durante copas do mundo.

    Com relação às batalhas, ela age em nosso instinto competitivo, seja vencendo uma batalha virtual, um jogo de cartas, um esporte…

    Quanto à inexistência dos bichinhos, bom, qualquer pessoa com o mínimo de inteligência consegue compreender isso, ou alguém está pensando que um laboratório futurista desenvolveria seres novos e os soltariam no mundo? Mas isso não significa que eles não “existam”. O ser humano é capaz de sonhar, e de tornar algo abstrato real em sua mente. Isso ocorre quando lemos um livro que nos transporta ao mundo dos personagens, e por mais que eles não existam no mundo real/físico, isso nunca foi empecilho a nos emocionarmos com suas histórias, não é por acaso que pinturas, romances, filmes, séries, e mesmo jogos nos transportam a outro mundo, e ninguém critica a Monalisa por seu sorriso congelado, ou as obras de Pieter Bruegel por não exalarem aroma ou som.

    Sobre a crítica com relação à “realidade aumentada”, ela é claramente diz respeito ao aumento da “realidade” virtual que os jogos proporcionam. Ao invés de ficar sentado em casa olhando para uma tela, os jogadores devem sair às ruas e interagir com outros jogadores mais pessoalmente do que o habitual até então no mundo virtual.

    Por fim, quanto à futilidade humana e sua incessante busca pelo preenchimento de vazios, a culpa não é do Pokémon, o livro de Eclesiastes já diz: “”Vanitas vanitatum et omnia Vanitas””. Claro que há pessoas que extrapolam, mas a grande maioria dos jogadores são pessoas comuns que estão aproveitando para se divertir, o jogo só está servindo de bode expiatório com relação à atual situação da humanidade.

    Não queria me alongar, mas esse é o meu ponto de vista superficial.

    Grato pela continuação do blog.

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